
... e com muitos queijos na bagagem de regresso, que foram a minha perdição nas semanas seguintes ;)

«Existe ou sonhei esta água parada, esta grande cova selvática empoada de roxo, com aquela serenidade a ferros lá no fundo? Esta beleza estranha que não nos larga e nos contempla ao mesmo passo que a contemplamos?O carácter da paisagem é delicado e oculto. Embora a gente veja o campanário e as casas minúsculas no fundo da enorme cratera, duvida, e chega a supor que a vara dum mágico fez parar o tempo, e aquilo se conserva encantado entre montes desmedidos e brutos que o guardam prisioneiro. O tempo passa, os homens passam; só ali tudo está suspenso, na atitude fixa no momento do prodígio. Na solidão mágica não se ouve cantar um pássaro, a água não bole, as flores não bolem. Tudo se mostra na amplidão da cratera aberta para o céu e num grande silêncio estarrecido. Tão pouca tinta! Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três riscos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível só com sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima. Reparo que há efectivamente uns carreiros perdidos por entre os montes para descer lá abaixo. Mas eu não me atrevo! Tenho medo de que ao aproximar-me a visão se desvaneça no ar!...»
Raul Brandão, in "As Ilhas Desconhecidas"
(Fotografias das hortênsias e do mui recomendável "Rei dos Queijos", no mercado de S. Miguel - Açores, Agosto de 2010)









































