Wednesday, 30 April 2008

Fim do dia... tempo de "fechar a loja" e ir para casa





Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o
verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.

Maria do Rosário Pedreira



(Fotografia tirada na Costa Nova, Março de 2008)

E Abril chega ao fim...


(a partir do blog "A Lura dos Livros")

Tuesday, 29 April 2008

Uma voz vinda de longe aquece a noite...




Chamamento

Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossivel jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

Luísa Dacosta


(Fotografia tirada em Aveiro, Dezembro de 2007)

Esta semana, as salas de aula da Universidade de Aveiro estão assim...



... praticamente vazias. É a Semana Académica!

Monday, 28 April 2008

Paris - Um local perfeito na cidade-luz

Antes de viajar, a Moura Aveirense gostaria de saber dos prezados leitores... Qual o vosso local preferido em Paris? Levando ao extremo: se tivessem apenas 3 horas na cidade-luz, em que local gostariam de as disfrutar?

Et la reponse è?...

Um belo sítio para simplesmente... estar!

... e deixar a vida correr... ao sabor das águas do Vouga. Pertíssimo de Aveiro, encontra-se uma paisagem calma... comida fabulosa (ai aqueles pastéis de Vouzela!)... e para quem pensa que termas só mesmo para "velhinhos", desengane-se :-)


(Fotografia tirada em S. Pedro do Sul, Abril de 2008)

Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

Fernando Pessoa

Da próxima vez que estejam a pensar em viajar para outro país... pensem duas vezes... e "vão para fora, cá dentro"!... há tantos recantos em Portugal por descobrir.


O último CD de Andreas Scholl...

... está quase a sair. A Moura Aveirense vai tentar a sua sorte em Paris, onde as novidades discográficas costumam aparecer primeiro... Entretanto, deliciemo-nos com o (pouco) que vai estando disponível na Internet...


Depois do calor...

... dos últimos dias, voltou a chuva. Estes extremos primaveris... Bom início de semana.

Sunday, 27 April 2008

Um beijo...





Gosto da tua boca quando sabe
a chocolate, a vinho tinto de Portalegre,
a mar (é sempre a mesma coisa, tem
de aparecer sempre o mar), pensando
bem gosto da tua boca sempre.

Às vezes a tua boca ri e nada sabe,
ri porque prevê a hora certa da minha alegria.
Também eu mergulho no mar, porém
logo secos ficam os meus cabelos quando
me lembro que hoje é outra vez dia de S. Nunca.

Helder Moura Pereira



(Fotografia de Cartier-Bresson)

Com o calor que tem estado...

... os animais refrescam-se como podem... e a Primavera floresce em todo o seu esplendor... o pior são mesmo os pólens, que atormentam as alergias da Moura Aveirense! :S


(Fotografias tiradas por terras de Dão-Lafões, Abril de 2008)


Primavera

Esta é a estação das horas canónicas, dos
sinos que movem os dias nos seus traços divinos, da música
desses instantes que se metem pelos poros
da alma, fazendo ressoar a eternidade. Não sei
desde quando é assim: a primavera, que nasce no breve
equilíbrio entre os pólos, assiste ao nascimento
de flores que correspondem a uma imagem
da perfeição. Vejo-as imóveis nas naturezas
mortas, nos jarrões chineses de antigas
dinastias, nos pratos de rebordos esbeiçados
pelo tempo. São as flores que não atraem as abelhas - as mais
belas. No entanto, quando colho as outras flores, vivas,
e as meto dentro de livros, fechando-os entre outros livros
para que sequem mais depressa, imagino o diálogo
que se poderá travar entre as palavras e as pétalas, o pólen
e essa abstracta espuma das sílabas, o caule partido a meio
e o verso quebrado pouco antes do fim, o suficiente
para que o ritmo imponha a sua sombra. Um claustro
vegetal, cujas colunas são construídas
a partir de uma terminologia
botânica, das exóticas designações de herbários
amarelecidos, de rostos enrugados como as folhas
mais perenes. O que sei, então,
é isto: que o essencial resiste no coração
da primavera, e que o seu preço é este canto
de pássaros que vem não sei de onde, como
a luz da manhã quando a névoa
se desfaz.

Nuno Júdice

Um fim de semana prolongado pleno de sol!...

Friday, 25 April 2008

25 de Abril sempre!




Uma fotografia do 25 de Abril

Primeiro as árvores cobriram-se de folhas
depois de pássaros e depois
de homens

Jorge Sousa Braga

Thursday, 24 April 2008

Se, naquele dia, a disposição fosse esta...



... não teria havido a madrugada do "dia inicial inteiro e limpo"... não teria existido 25 de Abril. Aproveitem-no e não se esqueçam deste momento marcante da nossa História.

Paragem "termal"...

... para recuperar energias. Não, infelizmente não será aqui ;)





... mas algures por Portugal. O chamado "ir para fora, cá dentro"! A Moura Aveirense vai-se sentir-se deliciada na piscina termal :) Dolce fare niente!





Bom feriado e bom fim de semana!


Metáfora

Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
e das mãos, ou do búzio murmurante,
alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos despiram

José Saramago


(Fotografia de Bill Brandt)

O poder de sonhar!

"Consistência dos sonhos", a exposição com a obra de José Saramago, estará no Palácio da Ajuda até 27 de Julho e reúne mais de 1.200 documentos, fotografias, vídeos, recortes de jornais, objectos pessoais do escritor, cartazes e livros.

Da sua entrevista à imprensa, extraio esta frase... é que a Moura Aveirense também tem muito o hábito de dizer "obrigadinha" ;)


"Quero dizer simplesmente obrigadinho, que é um diminutivo que os espanhóis não entendem mas é qualquer coisa que sai mais do coração: Obrigadinho"

Mais um dia de aulas...


Wednesday, 23 April 2008

Ler, ler, ler...




Ode aos livros que não posso comprar


Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
- sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhes falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanto humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.

Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de outra fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

Jorge de Sena


(L'Arlésienne: Madame Joseph-Michel Ginoux", de Van Gogh - Fotografia tirada no Metropolitan Museum of Art, New York City, 2006)

A ler, este texto... e fazer exactamente o contrário que ele diz :-)

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verosimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

Guiomar de Grammon

Hoje comemora-se aqui o Dia Mundial do Livro!


Tuesday, 22 April 2008

Dia Mundial da Terra - Para festejar o melhor...





«You must not know too much or be too precise or scientific about birds and trees and flowers and watercraft; a certain free-margin, and even vagueness - ignorance, credulity - helps your enjoyment of these things.»

Walt Whitman


(Fonte: NASA)

... e alertar contra o pior...





«Don't blow it - good planets are hard to find.»

in Revista "Time"



Brasil - Terra à vista!

Hoje também se comemoram os 508 anos da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral. Há quem defenda que foi um "acidente de percurso" (a viagem teoricamente seria à India e o senhor perdeu o rumo...), mas há quem diga que se tratou de uma missão secreta de legitimação de posse do território.

Talvez devido a esta data, hoje lembrei-me de uma das séries míticas da infância da Moura Aveirense... Recordam-se disto (ver vídeo)? ;) Atenção, a música é cantada pelo actual ministro da Cultura brasileiro, o Gilberto Gil!



A personagem preferida da Moura Aveirense era mesmo a boneca de pano Emília :-)

Amanhecer... Dia da Terra!



Monday, 21 April 2008

Antecipação

Amanhã a Moura Aveirense celebra o Dia Mundial da Terra! Stay tuned on the Earth Day... Boa noite.


(Fonte: Mutts Comics)

Mário Laginha na Universidade de Aveiro

O pianista português Mário Laginha dá uma masterclass de piano no Departamento de Comunicação e Arte da UA, ao longo dos dias 21 e 22 de Abril.

A Moura Aveirense espera poder ir lá dar uma espreitadela ;)






(aqui acompanhado de Pedro Burmester e Bernardo Sassetti, numa música de José Afonso, bem apropriada a esta semana de Abril)

Depois da tempestade, a bonança...

Bom início de semana!

Sunday, 20 April 2008

Bom domingo




Longe de ti

Quando longe de ti eu vegeto,
Nessas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes,
Marca séculos, se esquece de andar.
Fito o céu — é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra — é uma várzea sem flores.
O universo é um abismo de dores,
Se a madona não brilha no altar.

Então lembro os momentos passados.
Lembro então tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas
Uma a uma desfia na mão.
Como a virgem que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos que deste-me um dia
E que eu guardo no meu coração.

Lembro ainda o lugar onde estavas...
Teu cabelo, teu rir, teu vestido...
De teu lábio o fulgor incendido...
Destas mãos a beleza ideal...
Lembro ainda em teus olhos, querida,
Este olhar de tão lânguido raios,
Este olhar que me mata em desmaios
Doce, terno, amoroso, fatal!...

Quando a estrela serena da noite
Vem banhar minha fonte saudosa,
Julgo ver nessa luz misteriosa,
Doce amiga, um carinho dos teus!
E ao silêncio da noite que anseia
De volúpia, de anelos, de vida.
Eu confio o teu nome, querida,
Para as brisas levarem-no aos céus.

De ti longe minh’alma vegeta,
Vive só de saudade e lembrança,
Respirando a suave esperança
De viver como escravo a teus pés,
De sonhar teus menores desejos,
De velar em teus sonhos dourados,
"Mais humilde que os servos curvados!
"Inda mais orgulhoso que os reis"!

Castro Alves



(Fotografia tirada a caminho de Arouca, Março de 2008)

A alegria do reencontro!


Friday, 18 April 2008

Mas antes de ir de fim de semana...

... um belíssimo fim de tarde no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, a ouvir música venezuelana, tangos e afins... Pena que estivessem poucas pessoas a assistir (cerca de 25), pois foi realmente um excelente espectáculo, com a combinação quente dos violinos com o piano, acordeão, contrabaixo e "cuatro" (uma espécie de guitarra, muito utilizada na música venezuelana).
Agora, sim, bom fim de semana!


Entre Tangos Milongas y Música Venezolana
O Ensamble Nueva Segovia de Barquisimeto (Venezuela) está esta Sexta-feira, 18 de Abril, na Universidade de Aveiro, para dar um concerto a que vale a pena assistir. Entre Tangos Milongas y Música Venezolana, o ambiente no Auditório do Departamento de Comunicação e Arte promete aquecer a partir das 18h00. A entrada é livre.

A versatilidade, a inovação e a extraordinária sonoridade latina unem-se neste grupo criado em 2005, em homenagem à sua cidade: Nueva Segovia de Barquisimeto.

O grupo é formado por músicos que estudaram no âmbito do Sistema Nacional de Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela, do Conservatorio Vicente Emilio Sojo, e do Conservatorio Simón Bolívar de Caracas, e tem por objectivo o estudo e a difusão da música, especialmente a música latino-americana e a música venezuelana.

O seu timbre é marcado pelo contraste e variedade dos intrumentos de arco (violinos e contrabaixo, o «cuatro», o piano e o acordelo, obtendo o conjunto uma sonoridade majestosa conferindo grande beleza e nível artístico à interpretação do repertório seleccionado.

No seu repertório contam-se obras de compositores locais que cultivam os estilos tradicionais da Venezuela e da América Latina, mas também compositores consagrados internacionalmente como Astor Piazzola.

(Fonte:
http://uaonline.ua.pt/)

Fim de semana em terras mouras...

... e tentar ter paciência com o tempo horrível... Bom fim de semana.



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill



(Fotografia tirada a partir do topo do Elevador de Santa Justa por um investigador Americano verdadeiramente apaixonado pela luz de Lisboa, Março de 2008)

Abril, águas mil...

Thursday, 17 April 2008

Fim de tarde...

... frio, com chuva e vento... só dá vontade de estar em casa, quietinha e quentinha... bem sei que se diz que "Abril chuvoso e Maio ventoso fazem um ano formoso"... mas que tempo horrível...

Ouvir música inspiradora, de Landi, para animar, aqui (é a primeira música que aparece)... aliás, todas as músicas desse mp3 player são uma maravilha! Boa noite.


Passacaglia della Vita

O come t'inganni
se pensi che gl'anni
non hann'da finire,
bisogna morire.
E' un sogno la vita
che par si gradita,
è breve il gioire,
bisogna morire.

Non val medicina,
non giova la China,
non si può guarire,
bisogna morire.
Non vaglion sberate,
minarie, bravate
che caglia l'ardire,
bisogna morire.

Dottrina che giova,
parola non trova
che plachi l'ardire,
bisogna morire.
Non si trova modo
di scoglier `sto nodo,
non vai il fuggire,
bisogna morire.

Commun'è il statuto,
non vale l'astuto
'sto colpo schermire,
bisogna morire.
Si more cantando,
si more sonando
la Cetra, o Sampogna,
morire bisogna.

Si more danzando,
bevendo, mangiando;
con quella carogna
morire bisogna
La Morte crudele
a tutti è infedele,
ogni uno svergogna,
morire bisogna.
E' pur ò pazzia
o gran frenesia,
par dirsi menzogna,
morire bisogna.

I Giovani, i Putti
e gl'Huomini tutti
s'hann'a incenerire,
bisogna morire.
I sani, gl'infermi,
i bravi, gl'inermi,
tutt'hann'a finire
bisogna morire.

E quando che meno
ti pensi, nel seno
ti vien a finire,
bisogna morire.
Se tu non vi pensi
hai persi li sensi,
sei morto e puoi dire:
bisogna morire.

Tarantella popular



(Fotografia do meu cão Gil, tirada num dia como o de hoje, Fevereiro de 2008)

Visita papal aos EUA...



Wednesday, 16 April 2008

Et la Moura Aveirense voyagera brièvement...




... à la belle cité de Paris! L'Opera de Paris, Le Louvre, La Tour Eiffel oh et aussi les Champs Elisées!... Voulez vous une petite carte postale? ;)

Je vais en travail, bien sure... ;) Réellement, la vie est difficile... LOL


(Musée du Louvre, janvier 2007)

Uma caminhada para começar bem o dia!





Ballet

Como jogos de água, ascendes vitoriosa e ufana.
Soberana,
à superfície do tablado estendes
as linhas com que nos prendes,
filigrana.

Língua de fumo da taça do turíbulo,
endoideceste em beleza.
Vermelha e quente como o sangue do patíbulo
é tua natureza.

Volátil,
rodopias em torno do teu eixo
centrifugando círculos de espuma.
Estacas. E em sonolento desleixo,
esboçando incompletos gestos lentos,
fragmentos de movimentos,
semeias flores, na bruma.

Ascendes e rodopias.
Rodopias e ascendes.
Fazes-te noites e dias
nas sombras que denuncias,
nos relâmpagos que acendes.

Célere, corres,
mimosa
e assustada.
Gaivota medrosa
na areia dourada.
O sol entontece e morde.
Num repente, libertada,
deslizas, pura escultura,
na macia curvatura
de um acorde.

Nos pontos da trajectória
que descreves, transparece
o clamor da longa história.
Tua beleza é vitória,
dura vitória da espécie.

O escopro de milhões de anos arrancou-te à pedra bruta,
modelou-te em pormenor.
O sangue de milhões de homens, em ti, a ferver, se escuta.
A harmonia dos teus gestos foi revolta, treva e luta.
O perfume do teu corpo foi temperado em suor.

António Gedeão



(Fotografia tirada no Zoo de San Diego, Março de 2007)

Dia Mundial da Voz



Cuidem bem dela.

Tuesday, 15 April 2008

Serão com morangos, chocolates Lindt e...

... "Grey's Anatomy" ;) Prevêem-se emoções fortes... seriously... Boa noite.


A few of my favourite things... :P

A fruta...

(A partir de http://www.avignon-in-photos.blogspot.com/, uma das paragens obrigatórias da Moura Aveirense)

O chocolate...


(E a Moura Aveirense que até não é particular adepta de chocolates... perde-se com estes!)

Serenidade...

... com a música de Accordone. Bom fim de tarde.





Das coisas que competem aos poetas

Nas terras onde os sinos andam pelas ruas
há horas surdas sós e sem cuidados
há mar condicionado ao possível verão
e vendem-se manhãs e mães pelas três ideias
Nas terras onde a música é o fogo de artifício
a camioneta curva a carga sob os plátanos
e à sombra de lacrimejantes carros
o gato dorme a trepadeira sobe
o soba grita nunca ninguém sabe
a erva cresce e as crianças morrem
O mar aceita chão a mão do sol
Que plural deplorável o da magna agência mogno
E nas tílias há riscos de vestidos de retintas raparigas
e o dente resistente número quarenta cheira a pepsodent.

Ruy Belo


(Fotografia tirada em Viana do Castelo, Outubro de 2005)

É horrível e cruel...


Monday, 14 April 2008

Ouve-se o canto dos pássaros...

... no fim de tarde de Aveiro. Situação apropriada para ouvir o último encore do concerto de ontem de de Maria João Pires e Pavel Gomziakov, a maravilhosa "El cant dels aucells" ("O canto dos pássaros")... aqui com Pablo Casals! Bom fim de tarde... cheira a Primavera.



Como pintar um pássaro

Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás das árvores
em dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro.)
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do
vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro.

Jacques Prévert (tradução: Carlos Drummond de Andrade)


(Fonte: http://animals.nationalgeographic.com/)

Ouvir Maria João Pires... again & again...

Um belo concerto ontem na Casa da Música, um dos pontos altos da programação!

A Moura Aveirense já aqui frisou que não é particular adepta de Chopin... confesso que não fiquei particularmente impressionada pelas sonatas para piano e violoncelo - particularmente porque não fiquei maravilhada com o violoncelista. Nomeadamente, senti falta de maior potência sonora em algumas secções (estava mais ou menos a meio da Sala Suggia e houve vezes em que pura e simplesmente não ouvia o violoncelo) e ouvi algumas desafinações.

Do programa particularmente dito, preferi as peças para piano solo, o Nocturno em Si Maior e a Sonata n.º 3. As mãos de Maria João Pires tiram, realmente, sons milagrosos do piano... é raro ouvir-se algo assim.

Do meu ponto de vista, apreciei particularmente o violoncelista nos encores: os dois solistas tocaram em conjunto uma linda peça de Bach (uma Pastorale, creio...) e (a surpresa!) a peça "El cant dels aucells", uma música catalã muito, muito bela (que a Moura Aveirense conhecia na versão da família Savall e que já indiquei aqui).

Depois desta última música, saí ao início da noite da Casa da Música com uma sensação de leveza imensa. Ouvir Maria João Pires a tocar continua a ser das experiências mais profundas e cativantes que guardo dentro de mim.

Acordo Ortográfico...

... hoje em discussão no programa "Prós e Contras".

A Moura Aveirense não é nem contra nem a favor... simplesmente considero que tenho outros assuntos bem mais importantes / interessantes em que pensar. Bom início de semana.

Sunday, 13 April 2008

Lindas flores...

... chegadas do outro lado do Atlântico, a partir da "Cidade das flores", Joinville, Santa Catarina, Brasil. Obrigada, L.! :)



Algum dos ilustres visitantes deste blog pode indicar os nomes das flores de cima?


A mulher das flores

No meio das flores, a mulher encontra o
movimento de rotação da árvore; e à sua volta
as pétalas caem, numa rotação de corolas
de que ela é o centro.

Nuno Júdice

Um livro genial e intenso...

... que está a ser transformado em filme: "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago ("Blindness", em inglês).

Já se adivinha que o filme é muito intenso (na projecção feita no Canadá, 58 mulheres saíram, não conseguiram assistir às duas cenas de violação). A Moura Aveirense não gosta nada de filmes violentos... mas lembrando-me do livro, constato que tem de ser mesmo um filme assim, de modo a conseguir ilustrar a realidade de uma cegueira colectiva e a provocar um "baque" tão forte aos espectadores, como o livro o faz aos leitores. Se tivesse que escolher um "TOP 10" de livros, este estaria seguramente nos primeiros lugares.

A ver, o trailer, aqui. A ler, o blog de Fernando Meirelles (o realizador), acolá.

... sons mágicos, por Maria João Pires

Maria João Pires, acompanhada do violoncelista Pavel Gomziakov, a tocar obras de Chopin (que é, se não me engano, o compositor favorito da pianista), para comemorar o 3.º Ano da Casa da Música!



(uma gravura admirável, que encontrei em http://raim.blogspot.com/)


Por acaso, Chopin não é um dos compositores de eleição para a Moura Aveirense... mas iria ouvir sempre a Maria João Pires, mesmo se ela viesse tocar o "atirei-o-pau-ao-gato..." :-) Daqueles dedos saem sons transcendentes... que arrepiam profundamente a Moura Aveirense...


Programa do recital:

I
Fryderyk Chopin / Alexander Glazunov
Estudo op.25 n.º 7, transcrição para violoncelo e piano

Fryderyk Chopin
Nocturno em Si maior, op.9 n.º 3
Sonata para piano n.º 3, em Si menor, op.58
Allegro maestoso
Scherzo: Molto vivace
Largo
Finale: Presto non tanto; Agitato

II
Fryderyk Chopin
Sonata para violoncelo e piano em Sol menor, op.65
Allegro moderato
Scherzo: Allegro con brio
Largo
Finale: Allegro

Aqui fica um vídeo muito recente com uma imagem de má qualidade, mas que dá ideia do Chopin tocado por Maria João Pires (é, aliás, uma das obras que ela irá tocar no concerto de hoje). A pianista interpreta aqui o 4.º andamento da Sonata Nº3 Op.58 de Chopin, ao vivo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Domingo para ouvir sons de piano...



Saturday, 12 April 2008

A ler...

... a crítica demolidora à ópera "Os contos de Hoffmann" no S. Carlos por Jorge Calado, no caderno "Actual" do Expresso.
Embora não esteja sempre de acordo com todas as suas posturas e opiniões, admiro profundamente Jorge Calado. Foi meu Professor e constituíu, sem a menor dúvida, uma das referências para a profissão que escolhi (sim, se existem Professores que nos marcam ao longo da vida, este foi um deles no caso da Moura Aveirense!) e para a paixão que tenho hoje em relação à ciência, ópera e fotografia.

Sábado à tarde...




quem nunca sofreu por amor, nunca aprenderá a amar.

amar é o terror de perder o outro, é o medo do silêncio e do quarto deserto, de tudo o que se pensa sem pode falar, do que se murmura a sós sem ter a quem dizer em voz alta.

é preciso sentir esse terror para saber o que é amar.

e, quando tudo enfim desaba, quando o outro partiu e deixou atrás de si o silêncio e o quarto deserto, por entre os escombros e a humilhação de uma felicidade desfeita, resta o orgulho de saber quem se amou.

Miguel Sousa Tavares, in "Rio das Flores"


(Fotografia tirada na Costa Nova, Março de 2008)

Zapping...

Há dias, a Moura Aveirense ouvia alguém dizer que conseguia acompanhar três (!) programas ao mesmo tempo (em três canais de televisão diferentes)... que stress que deve ser, ver TV com uma pessoa assim...


Friday, 11 April 2008

Bom fim de semana





Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.

A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.

Maria do Rosário Pedreira


(Fotografia tirada na Torreira, Fevereiro de 2008)

Já nem se percebe...


Thursday, 10 April 2008

Noite fria e vazia...




O quarto vazio

Tenho de encontrar um vocabulário
preciso para cada um dos aspectos deste
quarto; mas o que irá faltar é
a palavra que te irá substituir, ou
o movimento do teu corpo
a caminho da janela, para a abrir,
deixando entrar, com o sol, a sombra
das árvores para dentro de casa.

A cadeira está ali, inútil,
agora que partiste; mas deixo-a
estar, para o dia em que regresses,
como se o passado fosse o dia
de amanhã, ou a tarde mantivesse
a tua presença, trazendo de volta
o vento que servia de fundo
à música da tua voz.

E fecho as cortinas, para
que a escuridão se faça, e
o perfume das flores se
confunda com o teu.

Nuno Júdice



("Automat", de Edward Hopper - Fotografia tirada na National Gallery of Art, Washington D.C., Janeiro de 2008)

Voar como um pássaro...


Manhã cinzenta e triste




Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.

Maria do Rosário Pedreira



(Fotografia tirada na Torreira, Fevereiro de 2008)

Wednesday, 9 April 2008

Que ventania!


Tuesday, 8 April 2008

08/04/08




Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre à água.

Fiama Hasse Pais Brandão


Boa terça-feira




Trago-te nas mãos uma bolsa de luz
para que a acendas quando a noite chegar.

Trago-te no saco a margem de um rio
para que nela descanses num dia de calor.

Trago-te na boca uma chama de palavras
para te aqueceres no frio do Inverno.

E todas as flores do mundo
na primavera que irá chegar.

Nuno Júdice



(Fotografia tirada na Serra da Freita, Março de 2008)

Que noite horrível...


Monday, 7 April 2008

Embora goste mais de cães...

... a Moura Aveirense lê neste momento um livro de poemas sobre gatos.


Há dias, sabes, em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar.

Pedro Paixão, in "Assinar a pele"


E a noite avizinha-se desagradável, com muita chuva e vento... aconcheguem-se. Boa noite.


(Fotografia retirada do sempre recomendável Zoo)

Para um dia nublado...

... uma música luminosa! Bom início de semana.



Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

José Saramago, in "Poemas Possíveis"


(Fotografia da Isola Bella, no Lago Maggiore, em Itália, Abril 2007)

"Madame Butterfly" em Aveiro

Belo serão de ópera, num Teatro Aveirense completamente cheio (o que mostra que os cidadãos aveirenses estão ávidos de mais espectáculos de boa música). Lá foi a Moura Aveirense engripada, com a sua "bateria" de pastilhas para a tosse e água mineral...

Bonito espectáculo, com uma orquestra exemplar (dirigida pelo maestro Mikhail Granovsky), que soube exprimir os momentos-chave do enredo com imensa emoção e suspense. A inclusão por parte de Puccini de apontamentos do hino americano e de sons de música japonesa na partitura é belíssima...

Lindos figurinos... Os cenários eram bastante simples (não houve grande variedade na mudança de cenários entre actos), mas bonitos (enriquecidos com efeitos de luzes vermelhas nos momentos de tensão dramática) - existiram cenas particularmente bonitas do ponto de vista estético, como o final do 2.º Acto, em que Butterfly com o filho esperam o regresso do oficial da marinha em frente ao mar.

Relativamente aos principais solistas: bela a voz do tenor Nikolay Lyubimov (o oficial da marinha). Devido à caracterização dos personagens e à Moura Aveirense estar distante do palco, não sei identificar se a Cio-cio San (a Madame Butterfly) era interpretada pelas sopranos Natalia Margarit, Natalia Karlova ou Irina Zarutskaya (uma deficiência do programa, que não indicava quem eram os intérpretes em Aveiro - aliás, as biografias de N. Karlova e I. Zarutskaya nem vêm descritas no programa, inadmissível num programa de 4 €...). A sua voz era bonita, sem desafinações, apenas pediria um pouco mais de potência vocal no final do 3ª Acto (para acentuar o dramatismo da cena).

À semelhança de "Tosca", igualmente de Puccini (que a Moura Aveirense viu no Verão, junto ao Lago Constance), esta ópera é altamente dramática... por mais que adore canto lírico, para a Moura Aveirense tem de haver um intervalo entre a audição deste tipo de óperas, os enredos são terrivelmente deprimentes... ;)

Apenas 2 apontamentos negativos: do meu ponto de vista, começar uma ópera destas (que em geral, é um espectáculo com pelo menos 2h30m de duração) às 21h30m, principalmente num domingo, é manifestamente tarde (o espectáculo acabou perto da uma hora da madrugada)... Em todos os teatros de ópera que conheço (Met, La Scala, por exemplo) a ópera começa no máximo às 20h (ainda que o Teatro Aveirense não seja exclusivo para ópera, deveriam ter em atenção as características deste espectáculo). Além disso, a temperatura dentro do Teatro Aveirense era sufocante, de tão quente e abafada... não sendo uma particular adepta do ar condicionado excessivo, mas não será possível ter melhores condições térmicas? Espero que não seja um estratagema para as pessoas comprarem águas nos intervalos, técnica que se faz em alguns restaurantes (comida salgada e calor = maior consumo de bebidas)...

Uma última pergunta para os melómanos que costumam visitar este blog: que versão da "Madame Butterfly" em DVD recomendam à Moura Aveirense? Karajan & Domingo & Freni? Desde já, agradeço!

Próximo concerto da Moura Aveirense: recital de Maria João Pires, próximo domingo, Casa da Música!


(Detalhe do quadro "Almond Blossom" de Van Gogh, que fazia parte do cenário da ópera "Madame Butterfly" - Fonte: entertainment.howstuffworks.com)

O tempo mudou...

De sol, calor e máximas de 28ºC nos últimos dias passámos para chuva e máximas de 16ºC durante o dia de hoje... Climate change, that's for sure... As constipações "adoram" estas mudanças de temperatura para se instalarem, eu que o diga. Bom início de semana.


Sunday, 6 April 2008

Serão de ópera em Aveiro




"Madame Butterfly", de Puccini, pela Ópera estatal de Ekaterinburg... Boa noite.


Sonhas?

Sonhas comigo?

Eu sonho contigo, amiúde. Vejo-te nessa diluída e vaga luz dos sonhos. Junto a mim estás, diáfana, movendo-te como um navio que longinquamente voga o horizonte. Perto e longe, sobre praias, em nosso peito vogando, em nossa voz.

Acordo porém - e não estás.

Mas fecho os olhos e regressas, luz e barco, com tuas velas altas, com tuas altas janelas em que a luz preguiça, com teus olhos, esses castiçais de sol que iluminam toda a escuridade.

Amo-te. Amo-te tanto, que não sei dizê-lo. Amo-te mesmo quando não és, ou és apenas a clara neve de um claro sonho, essa difusa luz que antecede a manhã.

Amar-te-ei sempre, haja o que houver. Que no sonho perdures, e eu assim te amarei também.

Fernando Cabrita



(Fotografia da Ria da Aveiro, Outubro de 2005)

Domingo de Sol & Calor = Praia


Música barroca para revigorar!...

... com Andreas Scholl a cantar árias de Handel, Porpora e o novíssimo "Stabat Mater" de Marco Rosano. Um concerto que decorreu no passado dia 22 de Fevereiro de 2008 em Sydney, Austrália, em que o contratenor foi acompanhado pela Australian Brandenburg Orchestra (direcção de Paul Dyer). Para quem gosta, a ouvir aqui...

;)

As coisas que se encontram na Net...


(Fotografia de Martin Pichl)

Sinais

E quando o nosso corpo nos envia sinais fortes de que devemos "abrandar o ritmo" ou mesmo "STOP FOR A WHILE"... temos que saber ouvi-los, por mais que custe.

Ficar afónico(a)...

... é aflitivo, quando a voz é o instrumento da profissão, como é o caso de um(a) cantor(a) ou um(a)professor(a).

Friday, 4 April 2008

A Moura Aveirense está adoentada...

... e a necessitar de repouso. Voltarei quando puder. Entretanto, bom fim de semana.


Thursday, 3 April 2008

Uma noite quente de Primavera...

... inspira a sons refrescantes... com a voz mágica de Marco Beasley (uma amostra neste vídeo). Boa noite.






Niemandsrose

Hás-de pensar ter encontrado
a rosa, hás-de gritar
esta é a rosa;
à tua volta todos
ouvirão, suspensos,
e, na rosa,
hão-de ver apenas o rumor
da tua boca
incendiada pelo verão.

António Mega Ferreira



(Fotografia de Ralph Matucci)

Que calor... vai uma limonada?



A Liberdade de Abril...

... adquirida na «madrugada do dia inteiro e limpo» (citando Sophia), foi referida na intervenção do Dr. Jorge Sampaio, que ontem recebeu o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.
Sem essa liberdade, não poderíamos, por exemplo, escrever o que bem nos apetece na blogosfera!

Uma bela cerimónia académica!


Liberdade

Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome

Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome

Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome

Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome

Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome

Nos meus farrapos de azul
no charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome

Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome

No bafejar das auroras
no oceano dos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome

Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome

Nas formas mais cintilantes
nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome

Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se transbordam
escrevo o teu nome

No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome

No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome

No trampolim desta porta
nos objectos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome

Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome

Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
nos meus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome

Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmos da morte
escrevo o teu nome

Na saúde rediviva
aos riscos desaparecidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome

Pelo poder duma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te

liberdade.

Paul Éluard (tradução de Jorge de Sena)


(Fonte:
http://www.scotlandyoga.com/)





("Die zwei blauen Augen", de Mahler, que foi interpretada por alunos da turma de música de câmara do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro)

Wednesday, 2 April 2008

Hoje esteve, definitivamente...

... uma tarde de Verão!

Está um dia fantástico!...

... não está? :-)

As temperaturas estão a aumentar :-)

A Moura Aveirense adora, sinceramente, dias de calor, mesmo intenso... não suporto o frio!




Doutoramento Honoris Causa hoje na UA

Em cerimónia a realizar a 2 de Abril, na Reitoria
Universidade de Aveiro atribui grau de Honoris Causa ao Dr. Jorge Sampaio
A Universidade de Aveiro organiza a 2 de Abril, a partir das 15h30, no Auditório da Reitoria, a cerimónia de atribuição do grau de Doutor Honoris Causa ao Dr. Jorge Sampaio, antigo Presidente da República Portuguesa e actual Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações.


A concessão do Grau de Doutor Honoris Causa tem um alto significado na vida académica da Universidade de Aveiro e a sua concessão constitui reconhecimento público do mérito das diversas personalidades distinguidas. Este ano, a Universidade escolheu uma figura com um percurso invulgar e verdadeiramente excepcional, em termos de pensamento e acção no âmbito da missão e dos valores de referência que guiam a Universidade de Aveiro (a educação, a ciência e inovação, a multiculturalidade e a lusofonia, a cidadania e o desenvolvimento humano).

Pelo carácter exemplar do relacionamento do Dr. Jorge Fernando Branco de Sampaio com as instituições de ensino superior e com a Universidade de Aveiro em particular, com consequências óbvias para a Universidade mas também para a região, considera-se merecedor da atribuição do grau de Doutor Honoris Causa por esta Universidade.

Recorde-se que a UA vem atribuindo o grau de Doutor Honoris Causa desde 1988. O Dr. Jorge Sampaio junta-se assim ao rol de 22 personalidades contempladas com o título, de entre as quais, o Prof. Mário Corino de Andrade, o Maestro Fernando Lopes Graça, em 1988, o Prof. Richard John Brook, em 1995, a Dra. Maria Barroso, em 1997, a poetisa Sofia de Mello Breyner Andresen, no ano seguinte, ou o Prof. António Damásio, em 2003. Os últimos notáveis agraciados com o título foram o Eng. João Picoito e Gilberto Gil, a 15 de Dezembro de 2006, por altura do 33º aniversário da UA.

A cerimónia de 2 de Abril (quarta-feira) será inaugurada pelo Coro do Departamento de Comunicação e Arte, dirigido pelo Maestro e Professor António Vassalo Lourenço e incluirá outros apontamentos musicais por alunos da classe de Música de Câmara do Prof. António Chagas Rosa.

O programa completo da cerimónia é o seguinte:
15h00 - Edificio da Reitoria
Recepção aos convidados
15h15 - Sala do Senado
Preparação do Cortejo Académico
15h30 – Auditório da Reitoria
Cerimónia de Doutoramento Honoris Causa do Dr. Jorge Fernando Branco de Sampaio que inclui as intervenções da Reitora, Prof. Maria Helena Nazaré, do Padrinho do novo Doutor, Prof. Júlio Pedrosa, e do próprio Dr. Jorge Sampaio.

Intervenções musicais:
Hino Académico Internacional, Gaudeamus Igitur, pelo Coro do Departamento de Comunicação e Arte, na abertura da sessão.
La Passeggiata, de Rossini
L’ Histoire du Soldat, de Stravinsky (excertos da suite)
Die zwei blauen Augen, de Mahler (do ciclo de Canções de um viandante)
Cassandra’s Songs nº. 2 e 3, de António Chagas Rosa

(Fonte: UA online)

Há sempre um porto de abrigo...



Amo-te como um planeta em rotação difusa
E quero parar como o servo colado ao chão.
Frágil cerâmica de poros soprados no teu hálito
Vasilha que ergues em tuas mãos de oleiro
Cálice que não pudeste afastar de ti.

Daniel Faria



(Fotografia da Ria de Aveiro tirada na Costa Nova, Março de 2008)

Tuesday, 1 April 2008

Será que é desta que a Primavera chegou para ficar?



Prevê-se subida da temperatura... Aproveitem o Sol e as tardes maiores :-)



Em momentos de tensão...

... há que respirar fundo e actuar calma e firmemente.





Existimos em relação com todos os pontos do universo, tal como com o futuro e com o passado. É só da direcção e da duração da nossa atenção observadora que depende a questão de sabermos que relação preferimos cultivar, que relação será para nós a mais importante e mais activa.

Novalis



("Madame Picasso", de Picasso - Fotografia tirada na National Gallery of Art, Washington D.C., Janeiro 2008)